Dossiê 31 - Cláudio do Amaral Filho

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Código de referência

BR RJCOC 05-05-03-31

Título

Cláudio do Amaral Filho

Data(s)

  • 2009 - 2010 (Produção)

nível de descrição

Dossiê

Dimensão e suporte

Documento sonoro: 1 item (arquivo digital; 5h05min)

Área de contextualização

Nome do produtor

História arquivística

Procedência

Área de conteúdo e estrutura

Âmbito e conteúdo

Entrevistas realizadas pelos pesquisadores Tania Fernandes e Gilberto Hochman e pelas bolsistas Daiana Crus Chagas e Érica Mello de Souza, para subsidiar as pesquisas 'Cláudio do Amaral Jr e a erradicação da varíola: Fundação SESP' e 'Campanha de Erradicação da Varíola'. Foram gravadas duas entrevistas, na cidade de Niterói, em 2009 e em 11 de março de 2010.

Avaliação, selecção e eliminação

Ingressos adicionais

Sistema de arranjo

Transcrição integral e entrevista editada

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Condições de acesso

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Idioma do material

Forma de escrita do material

Notas ao idioma e script

Características físicas e requisitos técnicos

Instrumentos de pesquisa

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Unidades de descrição relacionadas

Descrições relacionadas

Nota de publicação

Fernandes, Tania Maria Dias ; Chagas, D. C. . Vacina antivariólica: obrigatoriedade e ações educativas. In: Sebastião Pimentel Franco; Dilene Raimundo do Nascimento; Anny Jackeline Torres Silveira. (Org.). Uma história brasileira das doenças - vol. 8. 1aed.Belo Horizonte: Fino Traço, 2018, v. 8, p. 253-278;
Fernandes, Tania Maria Dias ; Chagas, D.C. ; Souza, e. M. . Varíola e vacina no Brasil no século XX: institucionalização da educação sanitária. Ciência e Saúde Coletiva (Impresso) , v. 16, p. 479-789, 2011
Fernandes, Tania Maria. Vacina Antivariólica: ciência, Técnica e o poder dos homens, 1808-1920. 2.ed.rev. Tania Maria Fernandes. - Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.
Hochman, Gilberto e Palmer, Steven. “Vacinação, varíola e uma cultura da imunização no Brasil” (Ciência e Saúde Coletiva, 2011); "A Canada-Brazil Network in the Global Eradication of Smallpox" (com. Canadian Journal of Public Health, 2010)
Hochman, Gilberto. "Priority, Invisibility and Eradication: The History of Smallpox and the Brazilian Public Health Agenda" (Medical History, 2009).
Daiana Crús Chagas. Erradicando doenças: De projeto internacional ao Sistema de Vigilância Epidemiológica - a erradicação da varíola no Brasil (1900-1970). Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2008.

Área de notas

Nota

Cláudio do Amaral Jr e a erradicação da varíola: Fundação SESP e Campanha de Erradicação da Varíola
Data: [2009-2010]
Local: Residência do entrevistado em Niterói (RJ)
Entrevistadores: Tania Maria Dias Fernandes, Gilberto Hochman e Daiana Crús Chagas
Edição da entrevista: Tania Maria Dias Fernandes, Vanêssa Alves Pinheiro

Apresentação
Esta entrevista que trazemos, em versão editada, foi concedida a pesquisas desenvolvidas na Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, que assumiam a varíola como objeto de análise, sob a coordenação de Tania Maria Dias Fernandes e de Gilberto Hochman .
A varíola se constitui na primeira e única doença cujo controle atingiu a erradicação mundial. No Brasil, a atuação da OPAS e da OMS foi central para o alcance desse objetivo, influindo na alteração das diretrizes institucionais do Ministério da Saúde sobre as ações envolvidas no combate à doença. A partir de 1966 foi criada a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV) no país, responsável por centralizar as ações nacionais de erradicação da doença e orientar o nível local, com foco na vacinação ‘em massa’ e na vigilância epidemiológica. É nesse contexto que Cláudio do Amaral desenvolve parte de sua atuação na área da saúde e promove sua contribuição.
Cláudio do Amaral, médico, nascido em Araraquara, teve importante atuação no processo de erradicação da varíola no Brasil, na Etiópia e na Índia. Ainda jovem abraçou a saúde pública como causa política e social e assumiu a erradicação da varíola como seu primeiro projeto de atuação profissional. O controle de doenças sempre marcou sua perspectiva profissional atuando, além da varíola, em ações na poliomielite, na AIDS e na tuberculose.
Ainda jovem e recém-formado, Cláudio do Amaral engajou-se no processo de erradicação varíola de caráter nacional, quando a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV), era coordenada pelo médico Oswaldo Silva, iniciando seu trabalho no estado do Maranhão. Neste período seguia-se, ainda, o modelo campanhista de mobilização social para adesão às práticas sanitárias vigentes. Como aporte para sua operacionalização seguia a orientação clássica da educação sanitária, ditada naquele momento, afinada com o projeto político vigente, que imprimia um cunho disciplinar às práticas de saúde, e se sustentava pela lógica da indução à mudança de comportamento, e da inculcação do medo à doença, como estratégia amplamente utilizada em várias ações ministeriais. No caso da CEV a educação sanitária se alinhava com a estratégia da vacinação ‘em massa’ como forma de assegurar a manutenção de altos índices de imunização populacional.
A partir de 1967 a OMS alterou sua estratégia para o alcance da eliminação da doença, que se baseava na garantia de índices de cobertura vacinal entre 80 a 85%, passando a assumir ações de vigilância epidemiológica e de vacinação de bloqueio, para alcançar a erradicação mundial, sob a coordenação do médico Donald Henderson.
No Brasil, Cláudio do Amaral, que desde o final da década de 1960, assumiu a coordenação da CEV, atuou sob as duas orientações, mantendo a estratégia aplicada desde o início da campanha, aliada ao estabelecimento de ações de vigilância epidemiológica, a cargo da Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). A educação sanitária era defendida como uma forma singular e estratégica, em uma perspectiva que, apesar de orientada como de conscientização individual, era calcada na mudança de comportamento frente à doença e seus riscos. Em vinculação direta com as escolas, as professoras e os alunos, que se submeteriam à vacinação, a CEV instrumentalizava esses atores que fariam o papel de disseminadores da relevância da vacinação contra a varíola, com informações sobre a doença, seus riscos e a importância da imunização.
A conjuntura política da década de 1960, em que se deu a erradicação da varíola no Brasil, favorecia o estabelecimento de diretrizes educacionais que prezassem pela alteração do comportamento popular, frente aos ditames governamentais. A obrigatoriedade legal da vacinação antivariólica reforçava esse intento e a força das grandes campanhas, com verdadeiros eventos que ocorriam em praças públicas, atraia a população que os vislumbrava como uma festa popular, com a presença de atores de forte apelo político e social, em um momento de limitação de tais encontros.
A partir de 1969, com a instalação das Unidades de Vigilância Epidemiológica, a Fundação SESP assumiu a responsabilidade por estabelecer e coordenar a Fase de vigilância e de manutenção do projeto de eliminação da varíola no Brasil. Sob a coordenação de Nelson de Moraes, a Fundação SESP preconizava uma modificação da estratégia assumida pela CEV até então, com a priorização da vacinação de bloqueio, também chamada de “casa a casa”, ou no próprio posto de saúde.
Como coordenador da CEV, Cláudio defendia a aproximação com as escolas e a vacinação “em massa”, em contraponto à vacinação por meio da busca individual, “casa a casa”. Todavia, foi durante a sua coordenação que a estratégia de vacinação de bloqueio para erradicação da varíola se desenvolveu de forma pioneira, em três estados do Brasil (Bahia, Minas e Paraná), em que a vacinação em massa ainda não tinha acontecido. Nestes locais foi possível fazer uma atuação diferenciada, na qual a vigilância epidemiológica, somada à vigilância de notificação, contribuíram para a erradicação da varíola e para o estabelecimento de ações posteriores para o controle de outras doenças transmissíveis, com a criação do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE), em 1975.
Sob a coordenação de Cláudio do Amaral a execução da CEV durou até a década de 1970 quando alcançou a erradicação da doença. O último caso de varíola foi registrado em 1971 e, dois anos depois, foi certificada pela OMS a completa erradicação da varíola no Brasil. O exemplo do programa brasileiro para erradicação da varíola foi considerado referência pela OMS e influenciou o estabelecimento de programas contra esta doença em outras partes do mundo. Internacionalmente, o último registro da doença foi anunciado em 1977 e, a partir de então, a varíola foi considerada mundialmente erradicada.
A entrevista de Cláudio do Amaral possibilita, além do reconhecimento de um destacado personagem da saúde pública brasileira, a apreciação da narrativa de uma trajetória descrita com entusiasmo e detalhes do cotidiano de relações políticas e sociais que envolveram a erradicação da varíola no Brasil e em outros países. A memória, aí conclamada, retrata a construção de um imaginário onde entrevistado e entrevistadores buscam um sentido comum para a leitura de um processo baseado em recordações, emoções, esquecimentos, silêncios, gestos e saberes ativados no presente, assumindo a abordagem histórica como determinante para a construção e análise do depoimento.
O acervo pessoal de Cláudio do Amaral, incluindo a documentação sobre a Campanha de Erradicação da Varíola, encontra-se disponível para consulta no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, assim como o conteúdo auditivo e transcrito desta entrevista na íntegra.

De Araraquara para a Saúde Pública
Nasci na cidade de Araraquara [1934] e lá existe um centro de saúde ligado à Universidade de São Paulo [USP] , que é um centro de treinamento para a Faculdade de Higiene da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo. As pessoas fazem a parte teórica em São Paulo e, depois vão fazer o curso prático em Araraquara. Vim para Niterói [UFF/RJ] para me formar médico e voltar para ser radiologista, mas quando entrei na universidade o Brasil vivia um governo de Ditadura [Civil-Militar] forte. Acabei sendo ‘aliciado’ por uma namorada de serviço social, que militava na Ação Popular . Fui presidente do Diretório Central dos Estudantes o que deve ter alguma ligação com essa aptidão para Saúde Pública. Fiz o curso da Escola de Saúde Pública de Manguinhos [ENSP/Fiocruz] e tenho um carinho muito grande com essa instituição exatamente porque vim de Araraquara com um gancho de Saúde Pública e de uma família de médicos.
Eu saí da Faculdade de Medicina [1967] e sempre visitava a Escola de Saúde Pública porque lá eu conhecia algumas pessoas, como o Eduardo Costa, que já tinha retornado do interior, e o médico da OPAS [Organização Pan-Americana da Saúde], o Ciro [Carlos Araújo de] Quadros. Aí eu fui me envolvendo com esse pessoal, que já tinha passado por uma experiência de campo. Eu não, eu tinha saído da faculdade em 1967, e estava de ‘pé no chão’. Aí um dia eu volto da Escola de Saúde Pública e não sabia o que fazer, como começar a fazer esse negócio de Saúde Pública. Eu abri o jornal (Última Hora) – vinha lendo nas barcas, porque naquela época não tinha ponte – e vi um anúncio do Ministério da Saúde dizendo que precisava de médicos para a Campanha da Erradicação da Varíola [CEV] . Aí, eu disse: “Oh, é aqui que eu vou.” Voltei na mesma barca. A sede da Varíola [CEV] era na avenida Beira-Mar, 205. Subi ao 6º andar e pedi para falar com o diretor da Campanha. Veio um sanitarista que se chamava dr. Olivier Pereira. Era um magrão, alto, sespiano stalinista, formado pelos americanos, e com uma disciplina incrível. Perguntou: “o que é que o senhor deseja? O senhor quer ser médico da Campanha? O senhor não tá brincando?” Ele era muito brincalhão, pegou um papel, chamou a secretária, pediu pra eu botar meu nome, e levaram o meu nome para o diretor da Campanha. Não passou um minuto, eu fui chamado para a presença do diretor. Fui entrando e cheguei à sala do diretor. Entrei, muito desconsertado, e quando eu entro, vejo uma pessoa sentada, e que dá um murro na mesa: “eu gosto do seu pai, mas aquele prefeito eu tinha vontade de pegar ele e mandar pra fora cidade de Araraquara.” Essa pessoa chama-se dr. Oswaldo [José] da Silva, e logo relacionou meu nome ao Cláudio do Amaral que ele conheceu em Araraquara, porque ele foi por dez anos diretor do Centro de Saúde Avançado da USP em Araraquara, e veio a conhecer meu pai que era secretário do Partido Social Progressista, partido do Adhemar de Barros.

O Posto de Saúde: da malária para a varíola
Oswaldo Silva e um grupo de sanitaristas foram os primeiros a serem treinados em Porto Rico e em Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que implementaram e colocaram o Posto de Saúde igual no mundo todo. Você chega na Índia, na Alemanha, na Europa, o posto de saúde é a mesma coisa. Só nos Estados Unidos que ele é diferenciado: é um posto de saúde avançado, que foi feito para os americanos, para dar certo lá.
Os americanos já estavam de olho no ferro e na borracha do Brasil quando deram origem à Fundação SESP [Fundação Serviço Especial de Saúde Pública] , que se iniciou no Pará por causa da borracha e do mosquito anopheles gambiae, que era o mais competente transmissor da malária. Aí o Ministério da Saúde chamou esses sanitaristas que tinham sido formados nos Estados Unidos pra trabalhar no controle do gambiae. Eles estruturaram uma campanha com quatro visitadores – que na Varíola vieram a se chamar “vacinadores” – um chefe de equipe – que veio a ser o mesmo chefe de equipe da Varíola – e um supervisor. Cada quatro equipes formava um conjunto, e em cada quatro conjuntos se formava outro conjunto de avaliadores. A varíola não foi a primeira erradicação sofrida no Brasil, foi a primeira de um vírus, mas não foi a primeira estrutura montada para erradicar. A primeira erradicação foi a do gambiae, na década de 30. E esses sanitaristas se espalharam depois pela Universidade de São Paulo, pelo Brasil, pelo exterior, porque eles tinham uma experiência de erradicação e de controle de doenças que não havia. Naquela época [no Brasil] se falava em controle e eliminação. Eles tiveram sucesso: acabaram com o gambiae, erradicaram do Brasil. Concomitantemente, estava aqui, um consultor da [Organização] Pan-Americana, que era o Fred Soper [Frederick Lowe Soper].

O início do trabalho na erradicação da varíola
A vacina da varíola era fabricada pela Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] e pelo Instituto de Biologia de São Paulo [Instituto Biológico de São Paulo] e era a melhor vacina de qualquer parte do mundo, uma vacina de primeira qualidade, em termos de purificação. O governo brasileiro resolveu modificar, porque o mundo estava de olho no Brasil, que era um exportador de vacina internacional e resolveu instituir a lei de 1966, que criou a Campanha de Erradicação da Varíola [CEV] e chamou um antigo malariologista, que estava em Washington, o dr. Oswaldo José da Silva, para estruturar [a Campanha], que foi formada junto com antigos erradicadores do gambiae que estavam no DNERu [Departamento Nacional de Endemias Rurais] . A Varíola foi estruturada numa estrutura de malária: era para caçar o mosquito, mas na Varíola não tinha o mosquito, tinha um vírus que transmitia de pessoa a pessoa.
O salário da Varíola [CEV], eu acho que era ótimo, porque era uma Campanha e você era contratado sem direitos. O primeiro contrato meu foi por prestação de serviço. Quando eu entrei a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] existia, mas os caras fugiam das normas, porque, provavelmente, o Oswaldo chegou para um ministro e disse: “Oh, nessa estrutura administrativa não dá pra erradicar coisa nenhuma, a erradicação não dá.” Foi a mesma coisa que eu ouvi do D.A. Henderson [Donald Ainslie], que comandava a Varíola em Genebra. Ele [Oswaldo] era detestado dentro da Organização Mundial de Saúde, porque a Varíola era uma campanha fora da rotina da Organização Mundial de Saúde. Ele passou a viajar pelo mundo, pegar recursos dos governos e entidades para colocar dentro da Campanha da Erradicação da Varíola. Não era dinheiro da OMS. O Oswaldo deve ter imposto o salário para médicos, para vacinadores, pra todo mundo. Eu ficava assustado – recém-formado fui procurar um serviço de campo, pensei que iria ganhar salário mínimo e ganhava oito mil reais. E, além disso, como eu viajava, eu tinha diárias – pela primeira vez eu ouvi falar em diárias. E um coordenador de nível estadual tinha uma gratificação. Então eu era bem remunerado. A Campanha da Varíola funcionou com uma estrutura em que se pagava bem ao médico, era um salário maior que do SESP, pagava-se bem ao avaliador e vacinador. Então o vacinador tinha o salário e tinha diária corrida, que mais do que dobrava o salário. Ele tinha uma aptidão, dedicação e medo de ser mandado embora porque ele nunca teve um emprego igual àquele.
A seleção para o trabalho não tinha dificuldade porque só botava no jornal que a Varíola precisava de vacinador e todos eram recrutados e treinados pro nível médico – e médico igual ao Olivier. Então, o Oswaldo [José da] Silva disse: “O senhor quer trabalhar na Varíola? Vai ser contratado. É um dos médicos contratados.” Eu não vi outro médico contratado. No dia seguinte ele disse pra mim: “Amanhã, às seis horas da manhã, o senhor esteja lá no DNERu, em Niterói.” – que a sede era aqui, no caminho do Barreto [Niterói]– “Lá o senhor vai ser treinado.” Cheguei, encontrei uma sala cheia de vacinadores. Eu abro a porta que me indicaram ser a do treinamento, vejo uns cinquenta vacinadores e o Olivier que para o treinamento e diz aos vacinadores: “Está chegando um médico, mas são vocês que vão erradicar a doença. Ele é o coordenador, mas quem vai vacinar são vocês. Ele vai ser coordenador de campo”. Porque ele [Olivier] resolveu colocar médicos no campo, e atrelou a Campanha à WHO [World Health Organization - OMS/Organização Mundial de Saúde]. Vieram viaturas, vieram alguns recursos pra comprar injetores [Ped-O-Jet] , e vieram recursos para a agulha bifurcada . No treinamento todo mundo, médico, vacinador, avaliador, e todos os vacinadores seriam vacinados.
É um engano dizer hoje que não havia mais varíola no Brasil. Quando eu cheguei no Maranhão [1967], o interior estava cheio de varíola, era uma varíola frustra [minor], mas quando eu cheguei no Paraná [1970] estava cheio de varíola e não era varíola frustra, era varíola major. O Brasil tinha varíola major, e morria-se de varíola no Brasil. Eu peguei muito óbito de varíola no Hospital Oswaldo Cruz, em Curitiba. Alguns eram diagnosticados como varíola porque se confundia muito com catapora, às vezes era uma catapora intensa. Mas a varíola tem um comprometimento com as partes profundas da derme, ela dá dor. A varicela [catapora] dá uma prostração e um mal-estar, mas ela não dá a dor que a varíola dá. No sul do Brasil também tinha muita varíola, porque tinha muita pobreza. Na parte rica de Curitiba não tinha varíola, porque tinha um posto de saúde perto, mas na periferia não tinha ninguém que vacinasse contra varíola. Era na parte mais pobre que você encontrava varíola. E cada caso de varíola produz mil outros casos, o que não acontece na AIDS, por exemplo.
Já havia, para aplicação, a vacina liofilizada produzida pela Fundação Oswaldo Cruz que, em termos de potência, é a melhor vacina produzida até hoje. A potência dela acaba se você deixar o tubo liofilizado no sol por muito tempo. Mas se você deixar no meio ambiente, ela é tão potente quanto na hora da fabricação. Ela não precisa de um frio [refrigerador]. Essa foi uma das razões do vacinador botar a vacina na sua bolsa e levar a vacina. Ele tinha todo cuidado porque foi treinado pra isso: a não expor a vacina ao sol, porque senão ele não estava vacinando, o máximo que ele estava pondo lá era a água, como ocorria nos postos de saúde antigamente, porque o que nós vacinávamos no posto de saúde era água. Eu estou falando de cinquenta anos atrás, eu estou me reportando ao dia em que eu fui contratado.
Então se pegava o braço e fazia o seguinte: você esticava a pele no braço esquerdo – porque você não escreve com ele e a vacina podia dar íngua, mesmo a purificada. Pegava a agulha bifurcada e dava quinze agulhadazinhas e, depois você esfregava. A vacina da varíola tem uma potência excelente. É a melhor vacina do mundo, mas dá reação adversa e tem uma doença da vacina que se chama vacínia.
O Brasil, hoje, tem cem milhões pra você vacinar. Já imaginou se um vírus de varíola cai nesse povo aqui? Não precisa de bomba atômica. Pra quê bomba atômica? Quer bomba atômica melhor que o vírus de varíola?

Enfermeiras do SESP na campanha
Havia duas enfermeiras, a primeira que conheci era a Maria Miranda, uma enfermeira do [Hospital] Antônio Pedro [Niterói], que me ensinou todos os princípios de enfermagem. Graças a ela eu devo ter feito algumas cirurgias por aí com sucesso. A segunda enfermeira foi a Ermengarda [Faria Alvim], que era chefe do planejamento do SESP . Falaram: “Ermengarda, fala sobre unidade com ele.” E ela me levou pra uma L5, porque o SESP depois da unidade mista tinha mais cinco unidades. A unidade mista do SESP era uma invenção sespiana, porque em nenhum lugar no mundo tinha unidade mista, só aqui no Brasil. A Escola de Saúde Pública fazia treinamento teórico dos médicos ali – na unidade mista. Eles [os profissionais] ganhavam bem, para que não pulassem de emprego e ficassem quatro horas na unidade e depois funcionassem em outro lugar. Deveriam ficar oito horas de serviço e ganhar seus dez mil reais por mês.
Ela [Ermengarda] me levou pra uma L5, que tinha uma visitadora e um auxiliar de saneamento, numa vilazinha no interior do nordeste. Cheguei lá, falei assim: “A senhora faz cobertura de vacina?” Ela falou: “Todo mundo que eu conheço, vacino. Claro que não dá pra pegar o residual.” E isso aqui ficou na minha cabeça: essa enfermeira dizer que não dava pra pegar o residual? Porque é o residual que mantém as epidemias. Quando a gente resolveu acabar com o sarampo, em 85, nós não conseguimos. A Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro dava mil óbitos de sarampo por ano. Por que é que morriam mil crianças por ano de sarampo aqui, quando você tem uma belíssima vacina produzida pela Fundação Oswaldo Cruz, pelo Akira [Homma], que foi buscar uma cepa, que era excelente vacina. Então o que é que aconteceu? Aconteceu que o residual fica nos adultos que não tinham imunidade que vão até 20/25 anos e que não foram vacinados. Naquela época, não tinha uma vacina generalizada. Então acontecia que o adulto ficava sem vacinar, ele era o residual.

O treinamento: da agulha ao injetor
Quando o CDC [Centers for Disease Control and Prevention], veio aqui e viu trinta mil pessoas, quarenta mil pessoas, e a gente vacinando com agulha, eles sugeriram o injetor. Quando eles viram que dávamos mil vacinações por hora, mandaram um técnico nosso para os Estados Unidos, que foi treinado lá. O primeiro estado que fui usar isso [o injetor] foi o Maranhão, e aí usei no Brasil todo.
Depois do treinamento, com agulha, o sujeito era treinado para o injetor e ele era obrigado a desmontar o injetor e a limpar depois de cada área. Esse injetor não tem agulha, ele penetra a vacina através de um jato. Quando você encosta não entra a agulha. Entra com uma pressão violenta o líquido da vacina. A ‘pega’ dela era de quase 100%. Nunca vi pessoas vacinadas por injetor que não tivessem ‘pega’. Também era de fácil manuseio porque era igual a uma pistola, o que me deu um problema nos quartéis do Exército. Eu era chamado nos quartéis, nos estados que eu ia, e eles queriam saber por que eu queria 60 mil pessoas na praça pública, usando injetor, o que é que eu estava treinando. Então havia muito problema durante a Ditadura. Eu usava injetor na concentração de população na praça pública, nas escolas, ou quando tinha gente. Eu não usava injetor quando precisava dar um número final de cobertura de 90%, que aí você tinha que pegar pessoa a pessoa. Então, você usava a agulha e o injetor.
Com o injetor também dava problema técnico, porque depois de 5 mil vacinas havia entupimento. Então eles levavam um substituto e tinha uma equipe preparada ali perto para limpar. Depois de duas, três, cinco mil vacinações, ele tinha que desarmar o injetor, lubrificar e esterilizar pra trabalhar. Então em vez de ter cinquenta injetores, tinha seis.
O treinamento era o mesmo no Brasil todo, tanto na Fundação SESP, como no DNERu e na CEM [Campanha de Erradicação da Malária]. Em Pernambuco eu usei, como vacinadores, os [profissionais] borrifadores da CEM, que eram treinados porque eles não sabiam manejar a vacina, sabiam borrifar [pesticidas], mas não sabiam vacinar.
No Estado do Rio [de Janeiro], botei um injetor nas barcas e comecei a fazer uma estratégia de vacinação, de cobertura vacinal, que tinha que vacinar 100% da população. Porque só se rompe a cadeia da varíola, de passar um para o outro, se você tiver uma cobertura nesse nível: 98 a 100%. Quando os vacinadores começaram a vacinar, comecei a distribuir para o quarteirão. Aí eu encontro uma população fora de casa, e eles não conseguem fazer mais do que 55% de vacinação. A pessoa queria trabalhar e não tinha emprego, então estava que nem doido, procurando emprego fora das casas.
Havia a questão, ainda, da complicação da vacina, porque a vacina da varíola dava uma reação. Embora ela fosse purificada ainda criava problema na população. Vinha lá do século XVIII / XVII a ideia de que a vacina reproduzia a doença. As avós, principalmente as vovós: “Ah, meu filho, vacina não!” A avó não queria que o netinho ficasse com febre. Então isso era um problema cultural. Na Bahia, tinha alguns deuses que às vezes tinham um impedimento, mas eles não eram tão intensos como era na Índia.

O trabalho de campo: algumas observações
Um curso sobre organização de serviços de saúde não foi feito para erradicar doença. Erradicar é um processo separado. Por mais que uma Unidade esteja lá no top, há fenômenos que influem nisso tudo, nas pessoas, nos funcionários, nas estruturas.
Inclusive, existem as universidades, que não ajudam. Eu não saí da universidade sabendo o que é erradicação, o que é eliminação, me ensinaram outras coisas. Eu fui aprender por mim mesmo e na Escola de Saúde Pública, que no meu ano mudaram um pouco o curso. Eu recebia aqueles ‘catataus’ de Epidemiologia pra decorar que era uma coisa forçada. Mas foi bacana porque colocaram Filosofia, que é uma coisa boa pra você discutir outras coisas.
Era difícil formar pessoas para Unidade Sanitária que tivessem experiência de campo. Elas têm dificuldade porque a primeira coisa que aprendem na escola é que a Unidade é que tem que vacinar. Aí ela se fecha naquilo e não há meio de dizer que é outra coisa também. Que precisa valorizar outras coisas, outros fenômenos que aparecem na população ou na comunidade, que não é feita só da Unidade Sanitária.
Eu encontrei gente muito boa em Unidade Sanitária, principalmente, na área do SESP, onde eles tinham um salário bom e podiam sair [para o campo]. A Campanha sempre foi muito bem-vinda. Ela ajudava, chegava e estimulava o pessoal da unidade. Eu nunca vi uma Unidade Sanitária ser contra. Às vezes, [o profissional da unidade] até queria sair, mas não tinha como. A Unidade fechava ao meio-dia. Nós é que começamos a forçar a barra, aqui no Estado do Rio [de Janeiro]. Nós demos duro na época pra unidade fechar às seis horas, abrir sábado e domingo.
Eu quero lembrar uma coisa: em 1966 o Brasil não tinha uma estrutura de Vigilância Epidemiológica. Ele tinha uma história de erradicação, porque a varíola não foi a primeira erradicação. A primeira foi de um mosquito, que foi o gambiae, que era um transmissor da malária.

A experiência do Maranhão e de Pau Grande
Em 68 tive que viajar. Eu era Vice-presidente da Associação Internacional de Estudantes de Medicina, com sede em Genebra e a reunião ia ser lá. Cheguei para o Oswaldo Silva, que era o diretor da Varíola e falei: “Preciso me ausentar por uns vinte dias, preciso ir para a Finlândia”. Ele falou assim: “Tudo bem, você vai mas tem outra coisa: a sua passagem está pronta, você vai assumir o Maranhão.” Em nível central [federal] tinham feito um projeto para o Maranhão de três anos. Aí, então, quando eu volto, já encontro um treinamento no Maranhão, depois de dois, três dias, já levo três educadoras, já levo alto-falante, já levo projetor, e uma porção de coisas.
O Brasil já estava em plena Campanha da Varíola e eu já tinha alguma experiência. O Oswaldo Silva, e o grupo central do Rio, me chamou e falou assim: “Você é capaz de fazer uma boa vacinação? Vem o pessoal da OMS aqui, vem todo o pessoal de Genebra, da WHO. Bom, então vão chegar uns caras e você vai ser o encarregado de vacinar sabe onde? Pau Grande [Magé-RJ], a terra do Garrincha”. Os caras foram espertos, escolheram uma cidade pequena pra mostrar. Senti, naquele momento, que estava havendo uma crise em nível central por causa da cobertura vacinal.
Eu namorava uma professora... que teve um papel muito importante. Um dia, conversando com ela, eu falei: “Olha, eu estou tão desanimado como meu trabalho.” Eu fui procurar fazer um trabalho de Saúde Pública na população porque eu queria uma experiência de campo antes de fazer meu curso de Saúde Pública e eu estou observando que isso aqui é uma coisa lenta, sabe, é uma coisa que não cabe no meu perfil.” Então, aquele momento da Varíola era uma coisa, para mim, meio desgostosa, que não cabia dentro da minha personalidade. Eu falava: “Eu não vou erradicar essa varíola de jeito nenhum” Diziam que havia pouca varíola no Brasil e isso é uma mentira muito grande.
Então, fui buscar na escola a questão de alcançar o nível de vacinação importante para romper a cadeia de vacinação, através de mobilização escolar. Esse que foi o grande trunfo da Varíola: se conseguiu juntar milhares de pessoas em praça pública, contra a estrutura política do país naquele momento, que vivia uma Ditadura, e que não queria povo na praça pública. Então foi uma briga danada.
Então eu fui pra Pau Grande, e exigi: “Olha, eu estou precisando três educadores.” Porque uma coisa que eu nunca aceitei e nem poderia aceitar era que me dissessem: “Você trabalha muito para a escola.” Eu ficava irritado. Eu pedi três educadoras sanitárias e projetores de slides, e comecei a trabalhar com a escola. Fiz as reuniões com todas as professoras, chamei as diretoras e fiz uma projeção de varíola e depois convoquei elas a fazerem uma reunião, por escola, com os professores. Entreguei às professoras material de casos para elas darem uma aula. Fui à Secretaria de Educação do Estado do Rio [de Janeiro] e pedi que dessem uma nota pra quem trabalhasse na Varíola, esse negócio de conceito do aluno na questão de saúde. A secretária até gostou. Eu falei: “Não vou fazer a vacinação na escola, mas na praça pública. Vou começar às cinco horas da tarde, quando o sol tá baixo, pra não atuar na vacina.” Comecei a preparar as escolas que nem um doido, junto com as professoras. Não fiz isso sozinho. Veja bem, quem fez foram as professoras. A minha doidice, que eu estou falando aqui, foi aquela movimentação e eu gostei. Não foi doidice, foi a coisa mais linda que eu fiz: foram as escolas de Pau Grande. E olha, o dia da vacinação, claro que houve repercussão. Até porque eles mandaram gente lá pra ver como estava a organização, e eles viram movimentação. O Olivier gostou, chegou lá, falou: “O Amaral tá fazendo direitinho, tá tudo mobilizado lá.” Eu nunca vi em lugar algum a mobilização que foi feita lá.
Antes a vacinação em massa era feita ‘casa a casa’. Neste momento eu interrompi. Falei que eles [os sanitaristas que erradicaram o gambiae] estavam em crise porque a cobertura ‘casa a casa’, que eles chamavam de “em massa”, não tava tendo resultado. Então não era uma vacinação que eles chamavam de “massa”. Era uma vacinação lenta, uma vacinação que não fazia uma cobertura que alcançaria o rompimento da cadeia de transmissão pessoa a pessoa. Eu estava oferecendo uma alternativa, que era vacinar num dia só. Num município que tinha 20 mil, mais ou menos, vacinar 80% num dia só. E a repercussão de “um dia só” chegava à periferia, para vacinar o restante, depois de poucos dias. Então ficou um misto. Por isso que eu digo que o modelo da pólio foi o modelo da varíola, e foi mesmo, claro que foi – você vacina num dia só.
Então o que nós cumprimos em Pau Grande? Onde nasceu o ‘um dia só’. Nós vacinamos 90%. O que é que aconteceu? O custo/benefício diminuiu. Já imaginou o custo do [método] ‘casa a casa’. A erradicação da varíola não passa de 8 milhões de dólares no país todo, com vigilantes e tudo. Porque era uma vacinação de massa, mas de modo diferente. Tinha uma organização antecedendo isso, que era a preparação para essa vacinação. Não iria precisar do [método] ‘casa a casa’, com duzentos vacinadores pra fazer. Iria com vacinador e uma pistola e só. Não usava outra coisa, só pistola, e fazia mil vacinações por hora. Ia uma pessoa junto com o ‘pistoleiro’ fazendo as marcações [no local da vacinação].

Do Maranhão para o Paraná: vacinação nas praças
Encontrei o ‘ouro’, descobri o ouro que era vacinar – tentar o meu modelo, usar o modelo que eu implantei, esparramar alguns outros coordenadores – que não tinha muitos que topassem a parada – e levar pra praça pública, pra vacinar 70/80% da população e cobrir rapidamente os municípios. Quando eu chegava no estado, eu procurava envolver o governador. Eu disse para o [José] Sarney [governador do Maranhão]: “A varíola, sem montar pessoas na praça pública, nós não vamos conseguir aquele objetivo”. Eu cercava também o estado: começava pela periferia e ia para o centro, pela repercussão que havia do trabalho dessas cidades em cima da capital, porque todo mundo vai à capital, vai pra comércio... “Olha, lá estão vacinando, vão acabar com a varíola...” E a Varíola começou a ser comentada. Antes disso, se procurava no estado, o governador, o secretário de educação e o secretário de saúde. Por exemplo, eu convenci o Sarney que o estado era muito grande: tinha 83 municípios, e Barra do Corda tinha o tamanho do Espírito Santo. Quer dizer, se você não tivesse mais vacinadores, mais recursos, você não terminava. E eu convenci esse político... porque eu gostava de mudar o perfil político do cara que pensava em ser eleito. Eu fiquei oito meses no Maranhão. Fui para o Paraná e fiquei uns sete meses porque eu tinha muito mais experiência e tinha muito mais gente. E tive o apoio político lá, porque eu fui logo falar com quem mandava, e podia me dar mais recurso. Eu dobrei os recursos da Varíola no Paraná. Quando cheguei, vi o secretário de saúde que era um paulista de Jaú – tem muita fotografia dele vacinando – fiz um acordo com ele. Ele disse pra mim que queria começar em Pato Branco, falei: “Não, você vai começar pela estratégia da Varíola. Você vai terminar em Pato Branco... se você participar da Campanha, você vai ser o deputado mais votado do Paraná”. Ele falou: “Do que você precisa?” Falei: “Eu preciso de muita coisa. Eu preciso dobrar o número de vacinadores, carro e injetor.”
Fui para o Paraná [1970] porque lá tinha muita varíola, e tinha quem notificava isso, porque eles tinham montado uma vigilância epidemiológica. Quando eu cheguei, encontrei o Ciro de Quadros que era um cara que tinha um carro e um vacinador. Às vezes, não tinha gasolina, dependia da secretaria porque a vigilância era das secretarias. Quando eu cheguei, ele falou assim: “Graças a Deus que você chegou.”
O Ciro foi um excelente vigilante, ele sentia a varíola ‘pelo tato’. Quando eu cheguei no Paraná, depois de negociar com o secretário, de dobrar o número de vacinadores, que foi lá pra 400, carro, injetor, vacina, diária, salário, eu falei: “Agora preciso de uma sede.” Então ele tinha construído, para as freiras do Hospital Oswaldo Cruz, um prédio que era num espaço em frente ao hospital, lá em Curitiba. Ele falou: “A sede vai ficar aqui, pronto. Você mora em cima...” Eu fui morar em cima e embaixo eu instalei a sede. Aí eu chamei o Ciro pra morar junto comigo, já visando a vigilância no estado, e falei: “Ciro, vamos fazer um trabalho concomitante: eu vou fazer a vacinação, e você... e tal.” Só que a WHO já estava convidando ele pra ir a Etiópia. Eu falei pra ele assim: “Vou te pegar na vigilância. Eu vou correr tanto com a vacina aqui...”, e ele falou: “Só se for vacinação nas coxas”, brincou comigo. Falei assim: “Vá fazer a avaliação depois.” Aí comecei a grande mobilização no Paraná. Cheguei em Cascavel e botei a cidade toda na praça pública. Já estava com cinco vacinadores, já tinha cara experiente do DNERu, tinha projetores, alto-falantes, já era um cara com uma certa entrada boa na Varíola – porque eu dava produção de vacinação – eu sentia que as pessoas começavam a me respeitar. Quando eu passei a morar no hospital, ele era igual ao nosso hospital aqui, do Caju que internava os variolosos. E estava acontecendo o que estava acontecendo no Rio, que tinha muita varíola, e varíola que se pegava no hospital. No Brasil, o último caso foi de um cara que estava internado com outra doença.
Então você podia buscar uma estratégia que estava nascendo naquele momento, que era a Vigilância, muito bem montada nos Estados Unidos, em alguns países como a Costa Rica e em algumas possessões americanas no Pacífico ou na América Central. Mas, na América do Sul, você não tinha uma escola, não tinha uma cultura de Vigilância Epidemiológica. Você tinha que acabar com a varíola num espaço de tempo muito pequeno, e não tinha recursos para montar uma estratégia primeiramente, para depois erradicar a doença, porque aí você tinha que ter mão de obra, você tinha que ter pessoas capazes. Em 1965 para 66 houve o primeiro curso de Vigilância, dado pelo Nelson de Moraes, que era um “preventivista”, um sanitarista famoso, um ‘sespiano’.
Tinha um avaliador dentro dessa campanha. Depois de ter essa vacinação em massa, esse avaliador saía em campo pra fazer a avaliação. E como é que fazia a avaliação? Fazia a avaliação pela ‘pega’ [da vacina].

Cartilhas para divulgação: professoras e alunos nas escolas e nas praças
Nós fazíamos a vacinação em dia de semana, à tarde, num domingo, ou num sábado, que eram os dias melhores para a vacinação, porque todo mundo podia ir pra praça pública. Tinha cidade que era à noite porque a grande festa do município era a vacina.
Nós começamos a valorizar a imprensa local. Tinha a mais alta informação possível – das professoras aos alunos, e dos alunos para dentro de casa. Então, cartilhas eram preparadas dentro da sala de aula. Não era uma coisa que vinha de cima pra baixo porque não dava certo. Tinha palavra que o aluno não entendia. Eles iam fazer a cartilha e o aluno era notificado que era uma doença que não dava só nele, dava no pai, na avó, no primo, na prima. Então a escola ia vacinar convidando a família do aluno. O aluno chegava em casa e falava: “Papai, domingo vai ter vacinação na praça e tal. Nós vamos, todo mundo vai vacinar, entendeu, então já tem que vacinar.” Tinha uma educadora, ela discutia comigo essa questão da educação. Ela foi uma das que me influenciou pra ir pra escola: “Ah, vá pra escola que é lá que você encontra o teu modelo certo.”
Quando eu discuti com a minha mulher, ela me deu uma luzinha. Ela disse assim: “Olha, se você não trabalhar o Centro de Saúde... Ele foi desenhado de fora, ele não foi desenhado para a mobilização.” É isso que as pessoas não querem entender. Eles funcionam como um mini hospital, quer dizer, dentro da questão da estrutura na qual eles foram montados. E ele foi desenhado para resolver o problema americano, que depois disso se espalhou pelo mundo e os primeiros sanitaristas brasileiros trouxeram para o Brasil. Então o que aconteceu com as educadoras? Quando eu falei: “Está aí uma questão que eu quero fazer.” Está aí a professora – o sucesso do nosso trabalho.
Um dia eu passo numa praça e vejo um stand com um pastor com um alto-falante. Assim foi a introdução do alto-falante na Varíola – um pastor chamando as pessoas e tocando uma música, e as pessoas indo lá. Ele conscientizando pessoas ali na praça pública para a igreja dele. Quando eu chego na escola, eu uso uma estratégia similar: eu converso com a professora, ela assume comigo, ela me diz o seguinte: “O que é que você quer?” Eu falei: “Eu quero uma porção de crianças do primeiro ano primário”. Eu fiz uma pesquisa, junto com os professores, numa escola de Nova Iguaçu [RJ], porque eu queria saber até onde eu podia contar com os alunos. Eu fiz uma roda com as crianças e fiquei no meio. Levei um prospecto da Varíola e contei a história da varíola para as crianças. Então, levava fotos, perguntava e falava sobre a vacina, depois amenizava aquele aspecto da doença, e perguntava a eles: “Se você tomar uma vacina, você vai evitar essa doença e vai ficar bonito assim, você vai ficar bonito como você é. Já imaginou você cheio de pipoquinha? Porque a varíola, se não mata, deixa cheia de pipoquinha.” Eu disse para as crianças: “Vocês não vão ter essa doença. Vocês só vão ter essa doença se vocês não forem vacinadas”. Aí expliquei o que era uma vacina. Eu falei para eles: “Não é obrigado. Agora, se não vacinarem, poderão ter a doença. Eu quero saber de vocês, quem quer ser vacinado.” Todo mundo quis ser vacinado. “Quem quer ser vacinado levante a mão.” Todo mundo levantou. Eu falei: “Eu vou vacinar com esse instrumento aqui, que não é um revólver. Daqui, desse bico, é que sai uma vacina. Pode até sair um pouquinho de sangue, mas nós vamos botar um algodãozinho, se sair, mas não dói. Quando você receber a vacina, você vai dizer: ‘Oba, recebi a vacina!’”
O trabalho começou aí. Eu vim ao Rio, falei: “Dr. Oswaldo, sem educadores não dá.” Aí ele me deu cinco educadoras, sendo que três de nível nacional, e, quando eu chegava no estado, eu recrutava educadoras a nível local. Depois foi o treinamento, que eu forneci: projetor, slides, material... E aí a estratégia foi a partir da escola que seria a vacinação. Então foi uma recepção danada pelos estudantes, com o estudante amadurecido, grande, não havia nenhum tipo de problema, vinha todo mundo. E aí começaram a encher as praças públicas, e começou a fazer uma cobertura, um percentual da cidade, que chegava a 70%. O Brasil tinha pronto o modelo da Varíola. Isso que tinha que ser feito. Não podia ser de outro modo. Ia passar o século, ‘casa a casa’, igual à malária, e não acabar. Eu sei que alguém ia acabar com o meu emprego, mas eu preferia acabar com o meu emprego.

Vacinação em massa e notificação
A Campanha da Varíola [CNCV] foi um órgão criado em 1962 e a CVE em 1966. Antes ela era descentralizada. Tinha um núcleo central, que pegava dados, dava as notícias, porque era uma doença de notificação internacional. Em final de 66, ela [a CEV] foi tão pressionada pelos países da América na reunião de Punta Del Este, que passou a ser uma Campanha ligada ao próprio ministro, ai ela foi centralizada. É claro que ela se descentralizava a nível de execução, você não mandava vacinador do nível central para a periferia. Esse vacinador era contratado, treinado, a nível municipal, a nível descentralizado. No finalzinho [da Campanha] nós pegamos alguns vacinadores treinados do Rio Grande do Sul, para não gastar muito tempo, e botamos em outras áreas, porque eles já tinham grande experiência.
Os injetores, foram doados pela PAHO [Pan American Health Organization - OPAS/Organização Pan-Americana da Saúde] e a Campanha recebia dinheiro e doações de toda ordem. Recebia dinheiro russo, como recebia da [Fundação] Rockefeller, é tudo a mesma coisa. E eram doações, mas eram pequenas, o que eles doavam era carro. A OPAS chegava aqui, fazia uma concorrência pública, comprava carro, ou vinham toyotas importados por navio, que eram entregues ao ministério, botavam chapas e eram entregues à Varíola. Vinha o dinheiro, mas 95% do dinheiro da Campanha de Erradicação no Brasil, era do orçamento federal, que se diga isso também.
A varíola é uma doença de massa e o que se propunha era vacinar onde a população era maior, mas nos estados do nordeste, eu não sei por quais razões, tinha uma vacinação maior do que no sul. Tinha uma vacinação da própria Campanha de Erradicação, que era nacional, descentralizada, e que deu em muitas crises, porque o Brasil não tinha como erradicar a varíola dentro dessas normas descentralizadas. Depois da vacinação descentralizada havia casos de varíola, como foi a epidemia em Branquinha [em Alagoas], onde houve uma vacinação, e o relatório do município dizia que estava supervacinado, over vacination, mais do que a população, mas depois de um mês houve uma epidemia. Você fazia uma vacinação, mas permanecia o residual nessas áreas vacinadas, porque não tinha cobertura suficiente para romper a cadeia de transmissão.
A CEV [Campanha de Erradicação da Varíola] era por lei, nacional, e tinha que prestar contas para o Tribunal de Contas, não fugia a isso. Eu tive vários problemas com o tribunal porque no Nordeste, na zona rural, o que faltava 2, 3, 5%, eu alugava burro, e eu pegava recibo em jornal, porque o vacinador não tinha papel, fazia o recibo aqui e mandava para o tribunal, e o juiz não aceitava. Então eles me chamavam, e eu ia lá explicar. Aí eu perguntava a ele como eu perguntava ao coronel, o que é que ele queria. Eu falava: “Só se o senhor mandar gente do tribunal acompanhar e dar o recibo”. Eu não tinha recurso pra isso. Tinha recurso pra vacinar, não para fazer a parte burocrática, de papel.
A Varíola utilizava a estrutura do SESP e a estrutura própria. Ela era diretamente ligada ao ministro da saúde, e não era ligada ao presidente de Fundação SESP. A Fundação SESP tinha mais caras ligados à vigilância epidemiológica – que era o sanitarista. Então, ao mesmo tempo em que eu começava a vacinação na periferia, eu armava uma muralha nesses municípios, junto com o médico que era meu auxiliar na campanha, para a estruturação da vigilância nesses municípios. A vigilância era ligada ao nível central. Quando eu saía do estado, eu deixava um médico ligado à secretaria de saúde ou um médico do SESP. Esse médico do estado junto com o médico do SESP estruturava a vigilância, nas unidades. Eu chegava na unidade e dava curso. Depois que a Campanha saía, escolhia uma pessoa da unidade, batia um papo com o diretor, fazia o possível pra manter uma geladeira boa com vacina, e falava: “Olha, quem não foi vacinado contra varíola, tem vacina aqui, continua vacinando”. Nesses estados começava, também, a notificação de catapora, que era uma doença similar. Então o médico, que já sabia definir o que era varíola e o que era catapora, ia fazer a investigação epidemiológica disso, já fazendo vigilância epidemiológica. Quando eu saí da Varíola, eu dobrei o número de postos de notificação.
Quando eu saía do estado, saía já com uma vigilância montada. Por isso é que você vai ver que eu aumentei em três vezes o número de postos de notificação de Vigilância Epidemiológica nos estados. Eu trabalhei duplamente. Não tinha uma vigilância, mas, ao mesmo tempo, em que estava se acabando com a varíola com uma estratégia com a escola, você estava armando uma estrutura de vigilância nesse país. Quando a Varíola termina, você tem montada uma vigilância de notificação nesse país, e que, semanalmente, você notifica. Foi quando foi introduzida a notificação negativa porque, mesmo não tendo casos de varíola, você era obrigado a notificar. Esse era o regimento.
O que eu fazia era a vigilância. Veja bem, a vigilância é que me dava esses dados. Isso eu vi na Índia. Quando chegavam os teóricos do CDC e os teóricos das universidades americanas, como Michigan, eles desenhavam: aqui era um caso de varíola. Dentro desse caso, dentro do que eles chamavam de achar o caso, conter o caso e follow up, que era a definição, eles faziam o que eles queriam. Então eles faziam um raio de contenção de um quilômetro. Quando isso não satisfazia, aumentavam para cinco quilômetros. Quando não satisfazia, vinte quilômetros. Quer dizer, você fazia a vacinação que eu fazia aqui no Brasil: era vacinar todo mundo. Então não havia diferença, muita diferença, na estratégia usada na Índia... O Sanjoy Bhattacharya me pergunta isso: “Qual é a estratégia?” Porque os caras estão naquela mania de dizer: vacinação de massa e Vigilância Epidemiológica. Não é bem isso. A coisa é ciência, é mais científica, não é desordenada. Tanto que seria ótimo que se pudesse fazer isso porque, para você botar sessenta mil pessoas na praça pública, não é brincadeira não.
As pessoas não recebiam um certificado de vacinação. Ninguém tinha esse certificado. A certificação [da vacina] era a escara que ficava. A vacina da varíola é válida por dez anos e quando você vai fazer uma viagem internacional, você pode tomar outra vacina, porque essa vacina não vai ser pega porque você tem anticorpos, ou então vai ter um somatório de anticorpos. O médico vê sua escara e pergunta a quanto tempo você vacinou contra varíola. Para certos documentos você precisava da vacina. Nós fazíamos o seguinte: você podia ir na unidade sanitária, que já começava a dar certificado para alguma questão escolar, ou outra coisa, porque existia uma lei de obrigatoriedade da vacina da varíola. O chefe do posto já estava orientado para dar um atestado dizendo que a pessoa foi vacinada durante a Campanha. Já se preparava aquela unidade, eu digo a unidade política, o município, para fazer a vigilância. Então treinava uma pessoa do posto para fazer qualquer caso de notificação que chegasse. O posto era obrigado a mandar um folheto mesmo com a notificação negativa para o nível estadual, para a Coordenação Estadual de Varíola. Nós começamos a implantar a notificação negativa – nenhum caso de varíola.

A Campanha no Estado do Rio de Janeiro
O Estado do Rio não queria a vacinação em massa, mas eu conhecia muita gente da secretaria: o Samuel, que era um cara importante, o Ulisses, a Maria Augusta, a Maria Efigênia e essas pessoas diziam: “Cláudio, tem muita varíola no Rio de Janeiro.” Então explodiu uma epidemia de varíola, lá na Vila Cruzeiro e uma epidemia, também, na Gávea, no Parque da Gávea.
Eu pensava: “Ainda vou ter que coordenar o Estado do Rio de Janeiro [1970]. Tem que vacinar o estado.” E o Estado do Rio era populoso, falei: “Vai ser reinfestado. Vai ‘sujar’ outra vez a área.” E era esse o grande temor, que todo trabalho fosse perdido. O grande medo era a reinfestação no Brasil. Carioca viajava pra todo lado, haveria uma reinfestação. Caramba... passar outra vez por esses estados, vacinar novamente. Então começou uma vacinação. Houve um acordo para não haver briga... O governador era o [Francisco] Negrão de Lima. Ele entrou, o secretário então saiu, quis sair, e falou: “Você vai vacinar, eu vou sair.” Entrou um outro secretário [de saúde] e, pra não ofender o ex-secretário, entraram em acordo para vacinar as escolas, as áreas pobres, favelas, hospitais. Então foi esse o grande acordo.

Na Direção nacional da Campanha
Um dia, eu recebi o diretor da Varíola, que era o Garibaldi [Bezerra de Farias], um potiguar e ele disse assim: “Você aceitaria [a direção da Campanha]? O pessoal quer você como diretor.” Eu fiquei meio emocionado. Já pensava no Rio de Janeiro, mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma esperança de fazer meu curso de Saúde Pública e dar uma direção na minha vida. Eu quero enfatizar isso na questão que me perguntam: “Mas de onde vem essa força, a força daquele comando. Você se levantava às cinco horas da manhã, botava o pessoal no campo e organizava?” Eu fui conduzido pra o final de uma campanha que foi um sucesso. Chego no final dela, sou escolhido para ser o último diretor. Eu não pedi para ser o diretor da Campanha. Vim para o Rio de Janeiro, porque o ministério, naquela época, estava no Rio e Janeiro. E fui trabalhar onde é hoje a Casa de Oswaldo Cruz [Av. Brasil 4036], lá era o meu escritório, no sexto andar.
E lá eu conheci muito toda essa ‘velharia’ da Varíola, porque eu era o mais jovem diretor. O resto era tudo, tipo [Celso] Arcoverde. Usavam gravatinha borboleta. Eles gozavam os mais jovens. “Ah, manda o Amaral.” Tinha que ver uma coisa... começavam a surgir doenças novas: “Manda o Amaral, manda o Amaral!” Eu preparei o país, e eu tinha o apoio desse pessoal antigo. Tinha o apoio mesmo.
Mas eu tive uma dificuldade: eles me escolheram e eu não sabia que meu nome precisava passar no SNI [Serviço Nacional de Informação] . Pra ser nomeado de fato, meu nome demorou três meses. Eles me colocaram como ‘respondendo’[pelo cargo], inicialmente. Então o Olivier falou assim: “Sabe uma coisa? Você bota o meu endereço, no Rio de Janeiro.” Ele morava ali na Glória [RJ]. O DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] bateu lá, ele já estava esperando, e falou assim: “Não, é um moço ótimo, um bom profissional.” E como eu dei também o endereço de Araraquara, o DOPS foi para Araraquara, e eles botaram uma viatura da polícia lá do lado da minha casa. É que o meu nome foi junto com o de um cara de Araraquara que tinha uma participação no MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro], e o delegado da cidade não sabia o que fazer, não achava nada contra mim lá. Como ele era amigo do meu pai, um dia ele chegou e falou: “Ó, Amaral [pai], estou cansado. Já pesquisei tudo. Tem o nome do seu filho lá. Eu não tenho nada contra ele.” E pediu pra o meu pai fazer um relatório sobre mim. Meu pai entregou e ele mandou para Brasília, para o SNI. Aí ele chamou um dos caras que mais conhece a SUCAM [Superintendência de Campanhas de Saúde Pública] nesse país, o Élbio, que disse assim: “Só se eu falar com o coronel.” E o coronel respondeu assim: “Tá pronto, pode levar.” Eu fui nomeado diretor da Varíola, mas demorou três, quatro meses pra chegar. O chefe da SUCAM, que vinha de Washington, e não era mais da Varíola, foi quem o Garibaldi chamou pra assinar minha portaria. Depois o Garibaldi, que era da campanha e já estava na SUCAM, assinou definitivo a minha ida, mas aí eu já atuava nesse Brasil todo.
Naquela época [juventude], a minha militância era aqui [Niterói] e tinha um DOPS, que era do Estado da Guanabara. Lá no Estado do Rio de Janeiro tinha outro. Eu nunca me desvencilhei do meu grupo de Niterói, da escola de serviço social, que liderava o movimento estudantil. Eu fazia medicina, militava aqui na escola de serviço social. Eu estava mais do que envolvido, na política universitária daqui de Niterói, e parte da militância foi para o “partidão”. Aqueles que eram cristãos, como eu, que vim da JUC [Juventude Universitária Católica], não quiseram ir pra o “partidão” embora fosse uma linha auxiliar durante a Ditadura.
Eu falei para o Garibaldi: “Dr. Garibaldi, o senhor quer que eu seja o diretor?” Ele falou: “Claro que eu quero, meu filho!” E eu disse: “O senhor tem prova que eu sou bom no campo. Aliás, estou fazendo até um favor a essa Ditadura, acabando com a varíola agora”. Ele era um conservador, porque no SESP tinha de tudo. O que tinha aqui fora tinha lá dentro do SESP, tinha stalinista, tinha cara de Direita, tinha cara americano. Tinha todas as influências lá dentro do SESP como tinha dentro do ministério, em outros programas. Eu vi cara stalinista e vi cara conservador.
Eu fui pra Varíola, como diretor, e aí, junto com o pessoal, começamos a implementar a Vigilância Epidemiológica da Varíola e a continuar a vacinação de pessoas sensíveis – de pessoas que não tinham a vacina.
Eu nunca tive uma experiência de Unidade Sanitária. Eu não fui de uma Unidade, embora a Unidade sempre tenha estado na minha cabeça. Eu jamais iria procurar manter e organizar essa vigilância dentro da própria Unidade Sanitária. A primeira coisa que eu fazia quando chegava na Unidade Sanitária era abrir a geladeira para ver se aquela geladeira tinha comida para os funcionários, porque, geralmente, se usava o próprio funcionário da Unidade para levar essas vacinas, as vacinas junto com alimento. Porque a vacina tem que ter uma conduta. Ela tem que ter um armazenamento correto. Ela tem que ser mantida numa certa temperatura, o frio tem que correr, senão ela se torna inócua, e era o que se dava nas unidades sanitárias.
Começamos a implementar a vigilância, e demos treinamento, vacinação, multivacinação, até o PNI [Programa Nacional de Imunizações] . Tinha o treinamento de unidades sanitárias, porque não adianta uma Unidade que não estivesse preparada. Quem iria notificar para a secretaria de saúde senão a Unidade. O dinheiro da Varíola era investido no treinamento de unidades sanitárias, como depois foi na Pólio [campanha]. Era inadmissível para mim, um cara que tinha vacinado metade desse Brasil afora, correndo riscos.
Então nós implantamos uma vigilância epidemiológica nesse país. O cara falou: “Você foi um vacinador...” Fui sim, um vacinador de massa, não era aquele [modelo] ‘casa a casa’ para pegar mosquito, isso era outra coisa. Não sou um mata-mosquito, sou um “mata-varíola”. Ora, fiz a coisa da melhor forma possível. Era pra fazer vacinação de massa? Eu fui achar o que havia de exemplo e que pudesse repercutir em toda a estrutura de saúde, como repercutiu. Você vê, hoje, o cara surge com um negócio [uma doença], todo mundo quer vacinar, vão correndo. O ministro fica louco.
Depois, eu vivi uns momentos horríveis aqui porque surgiu um caso de vacínia no Rio de Janeiro. Vacínia não é varíola, é a doença da vacina. E eu fiquei nervoso quando o jornal estampou: “Casos de varíola no Rio de Janeiro”, e estava na fase de consolidação.
Certificação Nacional: varíola zero
O último caso natural da doença foi diagnosticado em outubro de 1977, o que levou a Organização Mundial de Saúde a certificar a erradicação da doença em 1980.
O trabalho de varíola tinha acabado naquele momento. Era só chegar o grupo de certificação. O pessoal que estava lá tinha uma ótima experiência: o [Alfredo Norberto] Bica, que já tinha trabalhado na OPAS, o [João Baptista] Risi [Junior], que tinha acabado seu treinamento em pólio, no CDC. Então, eu me julguei apto a sair da Varíola. Eu pensei: “Olha, eu estou feliz. Primeiro porque eu comecei no campo, não comecei na Unidade, aprendi o que tinha que aprender, consolidei o que eu sabia e agora a varíola acabou”. Fiz uma reunião com Aldo [Villas Bôas] e [Alfredo Norberto] Bica e falei: “Dr. Aldo, eu cumpri minha obrigação. Deixei isso tudo funcionando – O Programa Nacional de Imunização”. E eles falaram: “Você está liberado.”
O Ministério [da Saúde] foi diferente depois da varíola em termos de cobertura vacinal. Nunca mais o Ministério bobeou. Se um ministro não organizar, e dizer que não precisa vacinar, ele tem que explicar. Hoje você não fala em sarampo. Tem sarampo nos Estados Unidos, mas não tem sarampo no Brasil. A metodologia foi a mesma, a estratégia foi a mesma. O Ministério da Saúde passou a ter um programa específico de vacinação que se chamou de PAI [Programa Ampliado de Imunizações - EIP/Expanding Imunization Program] e a própria OPAS não pôde ficar sem um grupo de vacinação, e quem foi dirigir o PAI [EIP] lá, foi o Ciro.
A Varíola teve a primeira multivacinação e vacina combinada. Eu uni varíola com sarampo no mesmo frasco, e tive a ousadia de aplicar na pessoa, lá no Nordeste, com dinheiro da SUDENE [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste]. Chamei o [Ricardo] Veronesi, de São Paulo, o Hermann [Schatzmayr] e a Fiocruz para fazer a dosagem de anticorpos, e foi um sucesso: era a mesma coisa que você vacinasse separado. Isso está publicado no Boletim da Varíola, em 1971 para 72. Comecei a fazer a vacinação combinada com o sarampo, no mesmo frasco, a partir de Recife. Não é multivacinação, quando você dá uma num braço e outra no outro braço. Era você colocar sarampo, febre amarela, no frasco da varíola, e aplicar essa vacina concomitantemente, e fazer a pesquisa laboratorial para ver se a formação de anticorpos era a mesma de quando você aplicasse isoladamente essas vacinas. Então fiz uma pesquisa nacional.
E estava dando resultado, tanto que, quando o CDC era procurado, porque não tinha esse tipo de experiência, ele mandava procurar a Campanha de Erradicação da Varíola [do Brasil]. Tem ofícios aí, que eu tenho cópia, com o pessoal do CDC mandando a gente orientar esses países que queriam fazer vacinação combinada.
Eu quero colocar a minha modéstia aqui também. Porque eu já tinha concluído aquilo que eu mais queria que era armar um sistema de vigilância. Depois, eu passei a ajudar também o sistema de mortalidade. Então eu criei esse sistema. Eu tinha conseguido montar, tinha conseguido ajudar a acabar com a varíola, porque não fui eu só. Quando você faz aquilo com amor, com gosto e com garra… Você tem um país de oito mil quilômetros de fronteira. Você tem um país que exporta varíola. Você foi o último diretor, você foi escolhido pela velha guarda para ser o último diretor da Varíola. Como é que você vai entregar [o resultado] para uma comissão internacional, com aqueles notórios saberes do mundo todo, entregar um país dessa complexidade e com uma Ditadura violenta.
Então foi organizada uma pesquisa nacional, um estudo nacional para se achar a varíola. Nós fomos pesquisar a varíola. Não tinha notificação. O Brasil estava silencioso. Seria fácil você achar um caso de varíola porque, nas nossas pesquisas, o que às vezes, acontecia, de tempo em tempo, era que o pessoal levava um cartão e mostrava na hora da vacinação: você fazia vigilância e fazia a vacina. No final, foi usado também um cartão editado pela própria OMS, com um caso de varíola e um de caso de varicela. Mas não foi no meu início. Eu usava slides de casos. Eu não tinha esse material. No final, depois de três anos no campo, é que esses caras de Genebra vinham aqui, viam a vacinação e faziam avaliação. Nós fomos investigar todo caso de varíola, todo caso de catapora, porque passou-se a ter muitos, seiscentos, setecentos casos de catapora... de varicela notificados e investigados. Não era só notificar, você ia lá mesmo, ver se era mesmo catapora. Tinha uma ficha e, além da ficha, você recolhia material, que ia para o Hermann [Schatzmayr] na Fiocruz, porque lá era o laboratório de referência para a varíola. O Hermann é que dizia: “Não é caso de varíola, é caso de vacínia, é caso de varicela”. Bom, então nós não quisemos usar o pessoal local para fazer a pesquisa no local. Nós tiramos esse pessoal daqui, colocamos no Rio Grande do Sul, o pessoal do Rio Grande do Sul foi para o Amazonas, o pessoal da Paraíba foi para o Mato Grosso, o pessoal do Mato Grosso foi para Alagoas, e assim nós fizemos uma pesquisa nacional, com recursos do Ministério da Saúde. E, finalizando, organizamos o encontro final, em João Pessoa.

A experiência na África e na Índia
Quando pediram um brasileiro pra ir pra Índia, o Bica, que era o Secretário Nacional de Ações Básicas, me chamou e falou: “Quem você indica?” Eu falei: “Eu indico o [Roberto?] Becker”, que era um cara novo e que tinha uma boa experiência de Vigilância na Bahia. Só que a família não deixou ele ir embora. Aí o Bica me chamou e falou: “Vai você. É você que vai. O Brasil tem um compromisso internacional, tem que mandar alguns técnicos, e você é que vai.” Então eu fui .
Mas aí eu falei pro Henderson: eu vou voltar para o Brasil porque eu não sei falar inglês” Ele falou: “Você não sabe inglês, mas você sabe erradicar varíola.” Isso ele me falou lá no escritório dele, em Genebra, na OMS, onde era a Varíola. Aí eu fiquei na Varíola, e ele falou: “Pega um professor lá na Índia.” Meu Inglês é um inglês indiano porque eu aprendi inglês na Índia. Eu sabia só gramática. Mas sendo de família italiana, sei falar italiano, sei arrastar francês. Na Etiópia eu só falava italiano porque lá todo mundo sabe falar italiano, porque foi colônia italiana. Então eu sabia falar, e trabalhava falando italiano.
A OPAS me mandou pra Darjeeling, lá pra Siliguri, na Índia. Em 1974, a Índia apresentou mais de 450 mil casos de varíola, e 80% foi a óbito. O Henderson me chamou e falou: “É você que vai pra Darjeeling.” Eu falei: “Porque é que não manda um inglês ou um cara subdesenvolvido?”. Ele falou assim: “É só você que pode ir porque veio de um país do Terceiro Mundo. Lá, pode ser que eles achem que o inglês seja espião.” Lá tem a maior base aérea da Índia que, naquela época, estava sendo ameaçada pela China porque eles davam apoio aos tibetanos. Tinha muitos refugiados tibetanos. Tinha lá o Buda, o Dalai Lama, que mora em Darjeeling. Fui para Darjeeling por uma questão política, porque lá não tinha varíola. Então eu armei a vigilância da Varíola lá, e vacinei as contenções, os casos que chegavam de Bangladesh, porque Bangladesh tinha varíola. Eu fazia reuniões de fronteira.
Fiquei dez anos lá. Fiquei cinco anos na Índia, cinco anos na Etiópia, e algum tempo em Genebra, preparando o documento [relatório final], pra depois vir pra o Brasil. Pensei: vou voltar pra o Brasil pra ajudar na Pólio. Foi isso que eu fiz com a minha mulher. O meu filho estava nascendo. Ela ficou grávida na Etiópia, ele ia ser africano e brasileiro. Quer coisa melhor do que isso?”
Aí e

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